Como projetos culturais na universidade fortalecem a comunidade acadêmica

Autor: Silvia Boni, Mentora

Em entrevista para Reuters, em 2003, em Paraty/RJ, o então Ministro da Cultura Gilberto Gil destacou: “tem que acabar essa história de achar que cultura é uma coisa extraordinária. A cultura é ordinária. Cultura é igual a feijão com arroz, é necessidade básica, tem que estar na mesa, tem que estar na cesta básica de todo mundo. E pra isso é preciso que haja sim, ainda, uma conscientização muito grande […]”.

A fala de Gil provoca um deslocamento do olhar: se cultura é base, e não exceção, então ela precisa ocupar um lugar central também nos espaços de formação, especialmente na universidade. 

Entrar na universidade é, para muitos jovens, a realização de um sonho. É motivo de orgulho da família e da comunidade, e possibilidade de ter melhores oportunidades. É ser representatividade para outros mais jovens. Porém, permanecer é um desafio que vai muito além das salas de aula e do conteúdo acadêmico. É nesse contexto que a cultura é essencial. 

Projetos de cultura na universidade criam pertencimento, constroem e fortalecem identidades, fazem com que as pessoas se descubram e se reconheçam. E esse vínculo traz estímulo e segurança para continuar. Mais do que isso, cria condições para que o estudante não apenas permaneça, mas se desenvolva de forma integral.

A universidade tem compromisso com o desenvolvimento educacional e científico, mas também com a criação, produção e difusão cultural. Nesse sentido, garantir o acesso à cultura não é apenas uma escolha institucional, é o cumprimento de um direito.

Esse direito à cultura está expresso em importantes marcos legais:

 

Constituição Federal de 1988 – Artigo 215:

O Estado garantirá a todos o pleno exercício dos direitos culturais e acesso às fontes da cultura nacional, e apoiará e incentivará a valorização e a difusão das manifestações culturais.

 

Declaração Universal dos Direitos Humanos (1948) – Artigo 27:

Toda pessoa tem o direito de tomar parte livremente na vida cultural da comunidade, de fruir as artes e de participar no progresso científico e nos benefícios que deste resultam. 

 

Declaração Universal sobre a Diversidade Cultural da UNESCO (2002) – Artigo 4:

“[…] ninguém pode invocar a diversidade cultural para violar os direitos humanos garantidos pelo direito internacional, nem para limitar seu alcance.”

 

Pacto Internacional dos Direitos Econômicos, Sociais e Culturais da ONU (1966), promulgado no Brasil em 1992 – Artigo 15:

§1. Os Estados-partes no presente Pacto reconhecem a cada indivíduo o direito de: 

1.Participar da vida cultural; 

2.Desfrutar do progresso científico e suas aplicações; 

3.Beneficiar-se da proteção dos interesses morais e materiais decorrentes de toda a produção científica, literária ou artística de que seja autor.  

§2. As medidas que os Estados-partes no presente Pacto deverão adotar com a finalidade de assegurar o pleno exercício desse direito incluirão aquelas necessárias à conservação, ao desenvolvimento e à difusão da ciência e da cultura.

§3. Os Estados-partes no presente Pacto comprometem-se a respeitar a liberdade indispensável à pesquisa científica e à atividade criadora. 

§4. Os Estados-partes no presente Pacto reconhecem os benefícios que derivam do fomento e do desenvolvimento da cooperação e das relações internacionais no domínio da ciência e da cultura.

O que é cultura?

Se a cultura é um direito e um elemento estruturante da vida universitária, é fundamental compreender do que estamos falando.

O conceito de cultura não é um consenso. Em muitos contextos, a cultura é associada às artes, como teatro, dança, etc. Em outros, pode ser compreendida como o conjunto de tradições e práticas de um grupo social, incluindo idioma, culinária, religiosidade, vestimentas e manifestações musicais. 

Para as ciências sociais, no entanto, a cultura é mais ampla: é uma rede de compartilhamento de significados e valores de um grupo. São compartilhados pelos membros desse grupo formando uma identidade cultural. Cultura é a forma como vemos e nos expressamos no mundo. 

O antropólogo Clifford Geertz (1926-2006) propôs a definição de cultura como “teias de significado” tecidas pelas pessoas, onde os símbolos e conteúdos são chaves para compreender a vida social e a formação da cultura. É algo que nós formamos e que, ao mesmo tempo, nos forma. Já o teórico cultural Raymond Williams era comprometido com a concepção democrática e cotidiana da cultura, onde ela aparece como parte inseparável da vida social.

O antropólogo Edward Tylor sugeriu um conceito de cultura como o complexo que inclui conhecimento, as crenças, a arte, a moral, a lei, os costumes e todos os outros hábitos e capacidades adquiridos pelo homem como membro da sociedade.

Para Paulo Freire, cultura é o resultado da atividade humana, do esforço criador e recriador do homem, de seu trabalho por estabelecer relações de diálogo

Edgar Morin, filósofo e sociólogo, afirma que a cultura é constituída pelo conjunto dos saberes, fazeres, valores e práticas que se transmite de geração em geração que mantém a complexidade psicológica e social.

Dentro da universidade ela aparece nas apresentações teatrais e musicais, nos saraus, nas rodas de conversa, nas áreas de extensão, enfim, todos os tipos de encontro que disseminam conhecimentos e arte. Isto quer dizer que onde há conexões humanas, está a cultura. 

O Instituto Semear compreende e valoriza a importância da cultura, promovendo conexões entre jovens universitários, incentivando trocas e construindo uma rede diversa:

Para fins de organização, a cultura pode ser compreendida em algumas categorias:

  • Cultura popular: é a base cultural de um povo, formada no cotidiano e transmitida de geração em geração;
  • Cultura erudita: produzida em contextos acadêmicos e artísticos formais, geralmente associada a instituições de ensino e pesquisa;
  • Cultura de massa: voltada ao grande público, difundida principalmente pelos meios de comunicação e pela indústria cultural. 

Que podem conter elementos:

  • Materiais: aspectos da cultura que são tangíveis, como objetos físicos e concretos.
  • Imateriais: intangíveis, como costumes e tradições que precisam ser reproduzidos.

 

Essa diversidade reforça que cultura não é única: ela é plural, dinâmica e viva.

Cultura e políticas públicas

Essa compreensão mais ampla da cultura também chegou às políticas públicas.

O programa Mais Cultura nas Universidades foi criado em 2013 por meio de uma portaria conjunta do Ministério da Educação (MEC) e do Ministério da Cultura (MinC). Essa iniciativa buscava desenvolver o campo das artes e cultura no ensino superior, fortalecer a extensão universitária em cultura, além de incentivar a inclusão social e valorização da diversidade. 

Dessa forma, a cultura passou a ser incorporada de forma mais estruturada às políticas institucionais das universidades, promovendo o reconhecimento das artes como campo de conhecimento e como elemento estratégico para a qualificação do processo educativo. 

Embora o programa não opere atualmente de maneira formal, a agenda da cultura no ensino superior segue presente por meio de diferentes iniciativas institucionais e projetos de extensão desenvolvidos pelas universidades, que mantêm e atualizam esses princípios em seus contextos acadêmicos.

Conclusão

Projetos culturais impactam a formação dos discentes de maneira profunda porque atuam em dimensões que vão além do conteúdo acadêmico. Eles criam espaços de encontro, escuta e expressão, elementos fundamentais para a construção de pertencimento. Aprender, nesse contexto, não é apenas adquirir conhecimento técnico. É aprender com o outro, com a diversidade, com as experiências compartilhadas.

As vivências culturais desenvolvem habilidades, fortalecem a autoestima, ampliam repertórios e criam conexões reais com o mundo. Formam profissionais mais completos e, sobretudo, cidadãos mais conscientes, críticos e sensíveis. Mais do que isso, mostram que a permanência na universidade não se sustenta apenas por desempenho acadêmico, mas por vínculos. E é justamente aí que está a força da cultura.

Porque quando um estudante se reconhece no espaço que ocupa, quando sua história encontra eco, quando ele passa a se sentir parte, algo muda profundamente. Ele não apenas permanece, mas também se envolve, se posiciona. 

Fortalecer a cultura na universidade é fortalecer pessoas. E quando pessoas se fortalecem juntas, o que se constrói não é apenas formação acadêmica, é comunidade.

Referências:

Acervo Paulo Freire – Biblioteca Digital: https://acervoapi.paulofreire.org/server/api/core/bitstreams/40a03671-6d0e-48ce-820d-eebc691c1292/content 

 

eduCAPES – A Implementação do Programa Mais Cultura nas Universidades: https://educapes.capes.gov.br/bitstream/capes/433783/1/e-book-A-Implementacao-do-Programa-Mais-Cultura-nas-Universidades.pdf 

 

Infoamérica – Raymond Williams: https://www.infoamerica.org/teoria/williams1.htm

 

Institute for Advanced Study (IAS) – Clifford Geertz: https://www.ias.edu/geertz-life

 

Observatório da Diversidade Cultural – Declaração Universal sobre a Diversidade Cultural: https://observatoriodadiversidade.org.br/leitura/declaracao-universal-sobre-a-diversidade-cultural/

 

OEA – Pacto Internacional dos Direitos Econômicos, Sociais e Culturais: https://www.oas.org/dil/port/1966%20Pacto%20Internacional%20sobre%20os%20Direitos%20Econ%C3%B3micos,%20Sociais%20e%20Culturais.pdf

 

Portal Águia – A cultura como “arroz e feijão”: https://www.portalaguia.com/post/pelo-direito-de-cultivar-a-mente-e-os-afetos-a-cultura-como-arroz-e-feij%C3%A3o

 

Revista UFG (Goiânia), v.21, 2021 – e21.70146 

 

Significados – Cultura: https://www.significados.com.br/cultura/

 

UNICEF Brasil – Declaração Universal dos Direitos Humanos: https://www.unicef.org/brazil/declaracao-universal-dos-direitos-humanos

 

UNICEP – O papel da arte e da cultura na formação acadêmica: https://www.unicep.edu.br/post/o-papel-da-arte-e-da-cultura-na-forma%C3%A7%C3%A3o-acad%C3%AAmica 

 

Universidade Federal de Santa Maria (UFSM) – Programa Mais Cultura nas Universidades: https://www.ufsm.br/2015/06/16/%E2%80%8Bufsm-e-habilitada-pelo-programa-mais-cultura-nas-universidades?utm_source=chatgpt.com

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