No Brasil, a arte sempre foi uma forma de denúncia e sobrevivência. Em um país marcado por desigualdades históricas, são as periferias, as comunidades indígenas, negras e imigrantes que transformam a dor em potência criativa. Em cada sarau, muro grafitado ou rima improvisada, pulsa a vontade de existir, de ocupar espaços que historicamente negaram a sua presença.
A arte brasileira é resistência, e é nesse cenário que emerge a poesia de Kyan Loza Callisaya, jovem de 18 anos, guarulhense, filho de pais bolivianos: “Minha infância foi marcada pela força dos meus pais, que enfrentaram o preconceito e a falta de oportunidades com dignidade e firmeza. Cresci na periferia, aprendendo, aos poucos, a me orgulhar das minhas raízes. Esse orgulho floresceu de vez no fim de 2022, quando passamos um mês em La Paz, na Bolívia. Ali, conheci de perto a história da minha família e entendi que minha ancestralidade não era um peso, era um legado”, narra o estudante de Letras da Universidade de São Paulo – USP.
Autor da poesia “Hipocrisia”, escrita em 29 de novembro de 2024, Kyan não se apresenta como um artista qualquer. Ele é o retrato de uma juventude que carrega nas costas o peso do apagamento, que transforma essa ausência em verbo, em denúncia, em esperança.
Leia abaixo a poesia na íntegra:
Hipocrisia (29/11/2024)
É sempre um europeu tentando roubar um pedaço da nossa história,
É sempre um europeu tentando apagar essa memória.
Tô cansado de expor minha dor,
E de sentir que o mundo acha que eu tô só inventando história.
Trágico, essa é a palavra,
Preconceito, a definição dessa “Ousadia”.
Tranco a porta da minha casa pensando: “ufa, mais um dia”,
Mais um dia sendo filho de imigrantes buscando um futuro digno,
Tentando não sofrer nas mãos da burguesia.
Mais um dia estudando pra ser alguém na vida.
Ninguém me ensinou que crescer em família boliviana me traria tanta força
em meio à turbulência da vida,
Ninguém me disse como é viver
nessa sociedade que não parece entender o que é empatia.
Eu nem existo no IBGE,
Não sou estatística,
Mas quando é pra mostrar a cultura andina,
Eles são os primeiros a tirar foto pra postar na mídia.
Esse espaço branco não me pertence,
Eu tenho o direito de reclamar em meio a esse ambiente que não tem uma pessoa indígena.
Quero dizer que venci na vida,
Mas só vou poder afirmar quando eu existir nas estatísticas,
Não como uma pessoa morta ou vítima de violência,
Mas como uma pessoa que resistiu e trouxe visibilidade pro meu povo.
E eu sempre ouço isso:
“ande com os “seus”, isso te fortalece”,
Mas eu não conheço os “meus”,
Droga, isso é tão difícil.
Tá ligado que minha única referência foi familiar.
Minha irmã está entre os 44% de pessoas indígenas dentro da USP.
E eu me imagino sendo a segunda pessoa da família a passar na universidade pública,
Ser um filho de imigrantes que nasceu na periferia,
Crescendo e sendo notado,
Porque eu jamais quero ser apagado.
O futuro não irá repetir o passado,
De quando todo mundo via eu sofrer preconceito e ficava calado.
E eu jamais vou esquecer,
Quando me chamaram de sujo,
Sendo que eu sempre fiz de tudo
Pra nunca ser mal falado.
E de novo,
Eu não me vi nesse lugar repleto de poesia,
Uns falam de amor, outros de hipocrisia.
Hipocrisia do sistema,
E dessa sociedade racista.
Quando eu nem posso me identificar como indígena,
Na hora que eu passar no vestibular e for fazer minha matrícula,
Vão pedir pra eu comprovar minha raiz andina.
Onde já se viu isso?
Ter que provar que sou indígena?
Sendo que eu nem tenho uma vida digna dentro dessa sociedade cheia de injustiça.
Isso é meritocracia?
Ter que comprovar minha existência?
E de novo,
Eu vou lembrar que não existo na estatística.
E eu tô cansado de tanta hipocrisia desse sistema e desses políticos,
que dizem que vieram da periferia.
Um dos mais de 160 Jovens-Semente de 2025, Kyan conta que escreve quando precisa “respirar para além do corpo”. Ele sente que: “é quando minhas dores, minha ancestralidade e meus desejos encontram espaço no papel.”
Em alguns versos, é possível conhecer um pouco da trajetória de Kyan, que é similar à história de muitos jovens no Brasil que vivem entre o silenciamento e a potência. “Espero que um mentor-artista me lembre que está tudo bem cultivar o lado artístico mesmo estando inserido no ambiente acadêmico e profissional. A arte não é um desvio do caminho, ela é o próprio caminho. Sem ela, não há vida. Nós somos arte.”, Kyan explica.
E é justamente por esses motivos que o Instituto Semear convida artistas, poetas, profissionais da cultura que têm 27 anos ou mais, a se inscreverem como mentores voluntários de jovens bolsistas como Kyan.