Novembro Negro: a trajetória de estudantes negros e o pertencimento dentro da universidade

O mês da Consciência Negra é um convite à reflexão sobre o passado, o presente e o futuro da população negra no Brasil. Mais do que uma data comemorativa e de memoria, é um momento para reconhecer as lutas, as conquistas e, sobretudo, os desafios que ainda persistem, sendo um deles o de garantir que estudantes negros e negras possam vivenciar plenamente a experiência universitária.

Trago isso, porque a trajetória acadêmica é, por si só, um caminho desafiador, não somente para a comunidade negra, mas para os demais estudantes de baixa renda no ambiente universitário. Sabemos que as dificuldades financeiras, a pressão por desempenho e as barreiras estruturais atingem a todos os estudantes. No entanto, quando olhamos para a vivência de alunos negros, percebemos que há outras camadas de complexidade, muitas vezes invisibilizadas dentro do ambiente universitário, o pertencimento e a identidade. Esses desafios vão além da permanência material colocada enquanto as condições financeiras, acabam alcançando lugares e dimensões simbólicas e identitárias, fundamentais para a sensação de pertencimento.

Pertencimento e identidade: pilares da permanência estudantil negra

Para pensar o conceito de pertencimento trago a pesquisadora Silvia Maria Amorim Lima que destaca, uma permanência estudantil qualificada, é preciso considerar tanto os aspectos materiais quanto os simbólicos. Segundo ela, a permanência simbólica está profundamente ligada à construção da identidade e à superação das violências raciais presentes nos espaços acadêmicos. Trata-se de criar condições para que estudantes negros se vejam representados e reconhecidos dentro das universidades. Essa dimensão simbólica se manifesta, por exemplo, no acesso a professores negros, bibliografias diversas, currículos decoloniais e espaços de escuta e acolhimento. Quando a universidade se abre para múltiplas epistemologias — incluindo as epistemologias negras, historicamente marginalizadas —, ela se torna um território mais plural e justo.

Reforçando a ideia de representação e identidade a educadora Nilma Lino Gomes também aponta que o processo de pertencimento passa pela revisão das estruturas universitárias onde consideramos diversificar o corpo docente, repensar o currículo e valorizar saberes produzidos por pessoas negras, assim cria-se os passos fundamentais para que a universidade se torne, de fato, um espaço democrático.

Resistir

O sentimento de pertencimento não nasce apenas da aceitação, mas também da resistência, estar nesses espaços é resistência pois contraria a lógica do que se espera para o ambiente acadêmico. Para muitos estudantes negros, ocupar a universidade é um ato político e ancestral. É carregar consigo histórias de luta e reafirmar diariamente a presença negra nesses espaços, não apenas como número nas estatísticas de cotas, mas como agentes transformadores do conhecimento. Assim, o Novembro Negro reforça a importância de dar visibilidade a essas trajetórias, reconhecendo que a permanência universitária negra vai muito além do suporte financeiro: envolvendo acolhimento, representatividade e dignidade. É sobre criar condições para que estudantes negros possam não apenas entrar, mas também permanecer, pertencer e prosperar dentro das universidades.

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