Dia Internacional contra a Discriminação Racial
Memória, resistência e cuidado
Autor: Arthur Martins, Time Administrativo
Hoje, 21 de março, é o Dia Internacional contra a Discriminação Racial, data instituída pela Organização das Nações Unidas (ONU) em memória ao Massacre de Sharpeville, ocorrido em 1960 na África do Sul. Na ocasião, dezenas de manifestantes negros foram mortos pela polícia do regime do apartheid ao protestarem contra as leis segregacionistas. O apartheid foi o regime de segregação racial vigente na África do Sul entre 1948 e 1994, no qual leis institucionalizavam a separação entre brancos, negros e outras etnias, reservando direitos, espaços e oportunidades quase exclusivamente à minoria branca. Sob esse sistema, negros eram impedidos de votar, viviam em áreas delimitadas e tinham acesso restrito à educação, ao trabalho e aos espaços públicos. A resistência foi longa e custosa, mas o apartheid foi desmantelado no início dos anos 1990, culminando nas primeiras eleições multirraciais do país em 1994, com a vitória de Mandela à presidência. O regime é hoje reconhecido internacionalmente como um crime contra a humanidade.
Desde o Massacre de Sharpeville, o dia 21 de março se tornou um chamado global para que governos, instituições e sociedades reflitam sobre as estruturas de discriminação que ainda persistem e também sobre o quanto ainda há a avançar no caminho da igualdade racial.
No Brasil, esse dia ressoa com uma força particular. Um país formado pela diáspora africana, pela escravidão de milhões de pessoas e por séculos de apagamento cultural e político da população negra, ainda convive com abismos profundos de desigualdade. O racismo aqui não é apenas um resquício do passado, ele se manifesta nas estatísticas de violência, nas barreiras ao acesso à educação e ao mercado de trabalho, no silenciamento de histórias e na invisibilização de territórios e culturas que resistem há gerações. Reconhecer esse cenário é o primeiro passo para transformá-lo.
É nesse contexto que ganham ainda mais sentido as ações de jovens que escolhem o cuidado com a memória e a identidade negra como forma de resistência e reconstrução. Quando uma jovem decide se debruçar sobre a história viva de uma comunidade quilombola urbana, ela não está apenas preservando o passado, mas também está afirmando que essa história importa, que essas pessoas importam, e que a cultura negra é um patrimônio de todos. É exatamente isso que faz Maria Eduarda Lopes Divino em Campinas, numa atuação que une escuta, pertencimento e compromisso com a justiça social. Ela foi Jovem-Semente do Instituto Semear em 2024 e cursa Arquitetura e Urbanismo na Universidade de São Paulo (USP).
De Belo Horizonte até o quilombo Casa de Cultura Tainã
Natural da capital mineira, Belo Horizonte, Maria Eduarda Lopes Divino se mudou para São Paulo em 2023 para cursar Arquitetura e Urbanismo na Universidade de São Paulo (USP) após ser aprovada pelo ENEM USP 2023 (aproveitamento da nota no Exame Nacional do Ensino Médio para ingresso na USP). Antes disso, se formou como Técnica em Sistemas de Energias Renováveis pelo Instituto Federal de Minas Gerais (IFMG). Já na graduação, Eduarda participou do Enactus USP Cidade Universitária, especialmente no projeto “Lixo ao Luxo”, que atuava na gestão dos resíduos por meio da construção de biodigestor, oficinas educativas socioambientais e coleta de resíduos recicláveis na Comunidade São Remo. Hoje, ela trabalha no escritório H+F Arquitetos e é ativa no Coletivo Malungo da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo e de Design da USP (FAUUSP).
Maria Eduarda Lopes Divino na Abertura da Trilha da Autoliderança 2024 | Foto: Instituto Semear
O Coletivo Malungo (@coletivomalugo) é o elemento propulsor deste texto. Foi lá que Maria Eduarda conheceu o Núcleo de Estudos Afrocentrados Sanfoka (@sankofanes). O Sankofa surgiu em 2021 e é um grupo de estudantes e professores pesquisadores que buscam aprender com a ancestralidade negra no Estado de São Paulo. Sua atuação se iniciou em territórios quilombolas a partir de projetos de extensão que estudam as técnicas construtivas destas comunidades e como se formam as habitações e seus modos de vida.
Com o Núcleo, a jovem passou a frequentar o quilombo urbano Casa de Cultura Tainã, localizado na Vila Padre Manoel de Nóbrega em Campinas-SP. Essa pesquisa faz parte do Programa Unificado de Bolsas (PUB), uma ação que visa o engajamento de estudantes de graduação da USP em atividades de ensino, pesquisa, cultura e extensão, inclusão e pertencimento, a fim de contribuir para a formação cidadã, acadêmica e profissional dos estudantes.
Memória, resistência e cuidado
Sob coordenação da Professora Doutora Elisa Atália Daniel Muianga, a atividade de extensão universitária “Arquiteturas de base comunitária: saberes tradicionais e tecnologias sustentáveis” acompanha e realiza visitas na Casa de Cultura Tainã, que há mais de 35 anos atua como um importante espaço de preservação e difusão da cultura afro-brasileira, que sedia atividades culturais, educativas e sociais. Como descreve Elisa em seu Currículo Lattes: “Considerando a relevância como referência cultural e social na região noroeste de Campinas, visitas à Casa Tainã e estudos preliminares revelaram a escassez de documentação técnica atualizada da edificação que considere a materialidade dos espaços.
Além disso, foram identificadas carências e problemas infraestruturais que comprometem o pleno desenvolvimento de suas atividades culturais e socioeducativas.” Assim, em conjunto com outros estudantes, Maria Eduarda Divino compõe o projeto de requalificação, manutenção e reconfiguração desse quilombo urbano por meio da troca e produção de conhecimento técnico-aplicado, reforçando o papel da educação e saberes tradicionais como instrumento de transformação social e fortalecimento cultural.
Núcleo de Estudos Afrocentrados Sanfoka reunido na Casa de Cultura Tainã | Arquivo pessoal de Maria Eduarda Divino
“Em Belo Horizonte, eu não tinha contato com quilombos e nem com figuras importantes na história negra. Chegar em São Paulo e ser acolhida por essas pessoas foi muito bom. Eu estive no quilombo (Casa da Cultura Tainã) algumas vezes e fui bem acolhida. Me senti em casa mesmo”. É assim que a jovem veterana do Instituto Semear se sente no espaço. A coletividade do local encanta Maria: “Me sinto na casa da minha vó. Tem uma questão também que preserva a cultura negra e a memória no sentido de família. Coisas que eu só faço com a minha família eu fiz no quilombo. São coisas que não acontecem em São Paulo.” Aos 21 anos, ela pode reforçar e aprender hábitos e tradições da comunidade negra que ocupa a casa, o que por si só já seria uma clara e intensa valorização da memória como aspecto de luta contra a discriminação racial. Mas sua participação não se limita ao valor sentimental e se completa com envolvimento técnico no quilombo.
Os conhecimentos adquiridos na graduação são postos em prática no quilombo. “O que a gente está fazendo é intervenção, então existe a parte do arquiteto de projetar”, ela comenta. E mais do que isso: a intervenção tem exigido desenvolvimento de habilidades comuns ao mercado de trabalho que não são aprofundadas na FAUUSP. “Até mesmo lidar com o mestre do quilombo, que tem suas opiniões. Tem coisas que ele fez. O anexo que tem dado problemas estruturais foi auto construído, então não teve um engenheiro. Às vezes na faculdade, lidamos com questões muito bem colocadas. Vamos lidar com terrenos planos, por exemplo. Lá não, estamos lidando com o mundo real.”, conta. O projeto de extensão põe Maria em desafios do cotidiano de um arquiteto, profissão que ela ocupará no futuro, seja por conta das relações interpessoais ou mesmo das dificuldades com a estrutura da Casa de Cultura Tainã.
Educação como instrumento de luta contra a discriminação racial
Relembrar o Massacre de Sharpeville, destacar a institucionalização do dia 21 de março como Dia Internacional contra a Discriminação Racial e contar singelamente a história da Jovem-Semente Maria Eduarda Lopes Divino com o quilombo urbano Casa de Cultura Tainã são simbólicas formas de demonstrar insatisfação com o persistente contexto de racismo no Brasil ao mesmo tempo em que aponta ações necessárias ao combate dessa perspectiva.
O Instituto Semear é uma ONG que há mais de 15 anos apoia jovens universitários de baixa renda em sua permanência universitária. De acordo com o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), três em cada cinco (60%) jovens fora do Ensino Superior no Brasil são negros. Nós acreditamos no poder transformador da educação como forma de enfrentar os problemas sociais do país, como esse. E a Maria Eduarda também acredita: “Muitas vezes a discriminação vem pela falta do conhecimento. O projeto se apresenta para as pessoas, sejam elas negras ou brancas, e mostram o que é o quilombo e como ele é importante na história não só negra, mas também do Brasil.” No Dia Internacional contra a Discriminação Racial, lembre-se da história da população negra, que contribuiu amplamente para a construção da base do país.
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