A Jornada Que Mudou Minha Curva
Acredito que todos nós temos asas para voar, mas, o que realmente precisamos é de oportunidades que sejam capazes de nos fazer desbravar os céus. Foi exatamente assim que me senti com a chance de fazer um intercâmbio graças ao PlantYou, Associação Belta e Quality English, afinal, viajar para fora do país era algo totalmente fora da minha realidade, principalmente devido a questão financeira, mas, com tais ajudas fenomenais eu pude não só me aventurar em um novo continente, mas entender muito mais sobre mim mesma.
Quando se tem asas mas não as domina completamente, um simples vento pode te tirar totalmente da sua curva e o que me tirava da minha era minhas inseguranças. Esforçava-me, dedicava-me, dava meu melhor em tudo que era proposto para mim nos mais diversos aspectos da minha vida, contudo, o que falava mais alto não eram os elogios, considerações e admirações, mas sim uma voz interior: “Você poderia ter feito melhor”; “Será que você merece tudo isso mesmo?”; “Você é o suficiente?”.
Ou seja, era completamente difícil enxergar minhas potencialidades e muito mais fácil apontar meus próprios erros, até mesmo quando minúsculos. Acontece que, quando ouvi meu nome sendo chamado naquela premiação durante o evento de encerramento de mais um ano de PlantYou, algo dentro de mim acendeu: “Sim. Eu sou suficiente” e era o primeiro passo capaz de colocar minha trajetória de vôo novamente na curva.
Viver espaços, sentir experiências, conhecer pessoas… O episódio de um intercâmbio em Cape Town me permitiu sentir de perto e na pele os resultados de todos os meus esforços de anos para finalmente chegar onde estou hoje, algo que estava cada vez mais difícil de notar com uma rotina corrida e cheia de afazeres, foi mais do que uma viagem, foi um respiro para perceber o quão grandioso o mundo é e como sou merecedora de fazer parte dele. Vamos conhecer um pouco mais do processo?
Os primeiros passos que marcaram o Mundo Novo
No primeiro dia, quando o motorista me buscou no aeroporto para me levar até a acomodação, senti como se minhas asas finalmente estivessem batendo em um céu completamente novo. Mas, como alguém que ainda não domina o próprio voo, qualquer vento mais forte poderia me desestabilizar e ali, aquele vento eram minhas inseguranças.
Fiquei triste por não conseguir conversar bem com ele. Nunca tinha tido aulas formais de inglês, então a voz que sempre tentou dobrar minhas asas voltou a falar: “Você deveria conseguir melhor… Será que você merece estar aqui?”. Era como se cada pequeno obstáculo tentasse me tirar novamente da curva que eu tanto queria seguir.
Ainda assim, no meio do medo e do desconforto, eu sabia que algo extraordinário estava acontecendo. Eu estava longe, vivendo algo que antes parecia inalcançável, graças à oportunidade proporcionada por pessoas e instituições que acreditaram nas minhas asas antes mesmo de eu acreditar nelas.
Com fome e cansada, resolvi procurar algo para comer. E foi ali, caminhando pelo centro da cidade, que percebi que, apesar dos ventos contrários, eu realmente estava voando. A atendente do restaurante elogiou minhas unhas; um artista de rua me chamou de bonita e pequenos gestos como esses aqueceram meu coração, como se o mundo estivesse me dizendo: “Você está exatamente onde deveria estar.”
A Coragem que superou o Silêncio
Cheguei carregando uma insegurança enorme sobre meu inglês. O medo de travar, de não conseguir me expressar ou até de acabar me isolando por causa da comunicação parecia acompanhar cada passo, como uma sombra insistente tentando puxar minhas asas de volta para o chão. Mas, assim como tantos ventos inesperados que a vida nos oferece, Cape Town me surpreendeu.
Acontece que as pessoas eram gentis, pacientes e verdadeiramente acostumadas a receber estudantes internacionais, é como se a cidade inteira entendesse que, às vezes, quem chega de longe traz não só malas, mas também receios e ela acolhe tudo. Logo, criar laços com professores e colegas transformou o aprendizado em algo leve, quase como se cada conversa fosse um pequeno impulso que me ajudava a voar um pouco mais alto.
E um dos momentos mais marcantes aconteceu durante um simples exercício de conversação: Eu falava, ainda com o medo escondido atrás das palavras, quando o professor sorriu e elogiou minha pronúncia e apesar de ter sido breve, atravessou-me profundamente, afinal, depois de tantos dias duvidando de mim, aquela validação contribuiu para tudo finalmente fazer sentido, como se minhas asas tivessem se encaixado no ar da forma certa.
A Diversidade que se tornou Casa
Eu não fazia ideia de que conheceria tantas pessoas diferentes durante minhas duas semanas ali uma vez que até então, eu não tinha dimensão de como um intercâmbio poderia ser um espaço tão potente de encontros, daqueles que não apenas preenchem os dias, mas ajudam a ajustar nossas próprias asas enquanto seguimos descobrindo como voar.
Pessoas de culturas e histórias tão distintas se tornaram essenciais para colorir minha experiência. Aprendi sobre inglês, claro, mas aprendi ainda mais sobre a vida, força, vulnerabilidade, sonhos que cruzam oceanos e realidades completamente diferentes da minha. Foi como perceber, na prática, que quando saímos da nossa curva e nos permitimos viver o novo, o mundo nos devolve em forma de gente bonita, leve e transformadora.
João, do Brasil, e Christopher, de Angola, foram dois desses encontros especiais. Criamos um laço tão forte que, mesmo hoje, seguimos conectados porque algumas pessoas simplesmente sabem pousar na nossa história do jeito certo. Juntos, visitamos o famoso V&A Waterfront, um lugar lindo, cheio de arte, música ao vivo, restaurantes e aquela vista do oceano que tira o fôlego. Ali, diante daquela imensidão, entendi mais uma vez que o mundo é grandioso, e que eu sou merecedora de fazer parte dele.
As Vivências que acalmaram o Vento dentro de mim
Não foram só as pessoas que me transformaram, foram também os momentos. Cada vivência parecia ajustar um pouco mais meu voo, como se o intercâmbio me ensinasse, dia após dia, a confiar nas minhas próprias asas e eu não fazia ideia de quantas experiências marcantes estavam à minha espera, e talvez esse tenha sido o mais bonito de tudo.
Subir a Table Mountain foi uma dessas experiências que ficam guardadas para sempre. Estar no topo, vendo toda a cidade aos meus pés, me fez refletir sobre a imensidão do mundo e sobre o quanto ainda existe para conhecer. Ali, diante daquela vista que parecia abraçar o horizonte, sentir paz, encantamento e uma gratidão tão profunda que quase doía, era como se eu enxergasse com clareza o quanto meu caminho tinha me trazido longe e o quanto eu merecia estar ali.
Outra memória inesquecível foi visitar o Gold Restaurant, um espaço completamente imersivo que celebra música, dança, cultura e gastronomia africana, onde, em meio aos tambores, às cores e às histórias contadas em cada performance, senti-me parte de algo grande, vivo e pulsante. Era impossível não perceber como o mundo é vasto e como cabe tanta beleza nele.
Claro… A caminhada até Clifton Beach! Fazia anos que eu não pisava numa praia, e voltar a sentir o vento, ouvir as ondas e encarar aquele horizonte sem fim foi quase um reencontro comigo mesma de forma que estar ali era tão intenso que as lágrimas simplesmente vieram, sendo mais uma forma de reconhecer o quanto aquela experiência estava ampliando quem eu era.
Os Laços que seguem voando Comigo
O tempo em Cape Town passou tão rápido que, quando percebi, já estava vivendo mais do que um simples intercâmbio, estava vivendo uma expansão do meu próprio voo. Eu nunca imaginei que pudesse criar laços tão profundos em tão poucos dias, e muito menos que esses laços continuariam vivos mesmo a quilômetros de distância. Ainda hoje trocamos mensagens, histórias, conselhos… É como se, de algum jeito, continuássemos caminhando e voando juntos.
Um dos momentos que mais me tocaram aconteceu depois de um dia na praia. Sentei para jantar com Christopher e em poucos minutos, vi-me abrindo meu coração e compartilhando minha trajetória, lutas, sonhos e conquistas. Ouviu com atenção e, no fim, disse: “Você merece estar onde está.”, foi como um vento forte que, ao invés de me tirar da curva, me reposicionou no rumo certo afinal… Eu me cobro tanto (mais tanto!) que às vezes esqueço o quanto já caminhei e quantas quedas transformei em impulso e naquelas palavras, recuperei a consciência de que sou capaz, de que minhas asas foram construídas com esforço e que nenhuma conquista minha veio por acaso.
Cada pessoa, cada conversa, cada momento… Tudo isso me transformou de uma forma que eu jamais poderia ter previsto. Enfim, estar em Cape Town não foi apenas viver um intercâmbio, foi viver uma mudança de vida, daquelas que realinham rotas, fortalecem asas e lembram a gente que o mundo é grande e eu também posso ser.
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