Mentoria: aprendizados que me marcaram
Autor: Felippe Furtunato, Jovem-Semente
A jornada universitária costuma vir acompanhada de uma bagagem invisível: a insegurança diante do desconhecido, a ansiedade sobre o futuro profissional e a dificuldade de transformar potencial em direção. Para muitos estudantes, esse período é ao mesmo tempo o mais rico e o mais intenso da trajetória. É nesse cenário que a mentoria se torna um elemento transformador.
A Jovem-Semente Karyne Alencar vivenciou essa experiência. Participante da Trilha de Autoliderança do Instituto Semear, ela passou por sessões de mentoria estruturadas em temas que foram da gestão de rotina aos hábitos alimentares, da organização do tempo à construção da carreira. Em cada encontro, a presença da mentora foi o fio condutor de mudanças que foram além das competências técnicas.
O peso invisível de ser o primeiro
Antes de falar sobre mentoria, é preciso falar sobre o ponto de partida. Para uma parcela significativa dos universitários brasileiros, a chegada ao ensino superior não é apenas uma conquista acadêmica, ela representa uma mudança significativa em relação à realidade familiar. São jovens que, muitas vezes, são os primeiros da família a ingressar na graduação. Em muitos casos, pode não haver referências próximas para orientar como funciona um seminário, como conversar com um professor, como lidar com desafios na faculdade ou o que fazer com as oportunidades que aparecem ao longo do curso.
Esse grupo costuma ser descrito como estudantes de primeira geração e carrega um conjunto de desafios que vão muito além das barreiras financeiras. Há uma dimensão simbólica nesse lugar de pioneiro que poucos falam abertamente: a sensação de não pertencimento e o medo de decepcionar pessoas que os apoiaram.
A universidade pública ou a bolsa conquistada são, ao mesmo tempo, uma porta aberta e um novo tipo de desafio. O estudante entra em um ambiente completamente novo, que exige o desenvolvimento de diferentes habilidades.
É justamente nesse intervalo, entre o potencial real do estudante e a falta de referências para desenvolvê-lo, que a mentoria atua de forma estratégica.
O que é mentoria e qual a sua importância?
A mentoria pode ser entendida como uma relação de desenvolvimento baseada na troca entre duas pessoas: de um lado, alguém com mais experiência; de outro, alguém em busca de crescimento e direcionamento. Mais do que ensinar, o mentor apoia, provoca reflexões e contribui para que o mentorado amplie sua visão sobre si mesmo e sobre suas possibilidades.
Seu valor está justamente no processo, no diálogo, na escuta e na construção conjunta de caminhos. O mentor não dita soluções, mas ajuda o mentorado a desenvolver autonomia para tomar decisões mais conscientes.
Nesse sentido, a mentoria se torna um acelerador de desenvolvimento. Ao ter contato com experiências já vividas por outra pessoa, o mentorado consegue evitar alguns erros, enxergar novas alternativas e ganhar mais clareza sobre seus objetivos. Além disso, a troca fortalece a confiança e contribui para a sua trajetória pessoal, acadêmica e profissional.
Quando um mentor experiente dedica tempo a ouvir um jovem, faz perguntas sobre seus planos e leva suas dúvidas a sério, ele comunica algo profundo: está dizendo que o que o jovem pensa importa, que ele tem algo a construir. Esse gesto, aparentemente simples, pode mudar a relação que o estudante tem consigo mesmo.
Um espaço construído aos poucos
Na Trilha de Autoliderança, os encontros seguem blocos temáticos que se encadeiam ao longo do ano. Começa pelo primeiro contato, quando mentor e jovem se conhecem, alinham expectativas e constroem juntos um plano de ação. Em seguida, sessões sobre gestão de rotina e hábitos alimentares ajudam o estudante a organizar o que muitas vezes parece caótico.
A Jovem-Semente Karyne chegou à mentoria com uma lista de desafios, tais como: conciliar a carga de estudos com uma rotina alimentar equilibrada, superar barreiras no inglês, dar os primeiros passos no mundo profissional. E a mentoria mostrou que esses pontos não são separados. Todos fazem parte de um mesmo processo de desenvolvimento.
"Durante a minha primeira trilha no Instituto Semear, as mentorias foram fundamentais para o meu processo de autoconhecimento. Ao longo daquele ano, minha mentora e eu construímos um espaço de muita troca, onde pudemos abordar temas essenciais para o meu desenvolvimento. Conversamos desde como conciliar a carga de estudos da faculdade com uma rotina alimentar balanceada, até estratégias práticas para superar barreiras linguísticas com o inglês e os primeiros passos para a vida profissional".
A rotina como ponto de partida
Um dos primeiros temas trabalhados na trilha de Autoliderança é a gestão de rotina. Não por acaso: sem organização, as atividades tendem a se sobrepor. Jovens universitários, especialmente aqueles que conciliam faculdade com trabalho ou com outras responsabilidades, enfrentam uma pressão constante para dar conta de tudo. A autocobrança cresce. O bem-estar recua. E o rendimento muitas vezes decai com o esgotamento.
O roteiro de sessão sobre gestão de rotina propõe perguntas diretas: como o jovem organiza suas ações e prioridades? Como lida com imprevistos sem comprometer suas entregas? Há equilíbrio entre as demandas acadêmicas, profissionais e pessoais? A ideia não é entregar uma fórmula pronta. É ajudar o estudante a mapear a própria realidade e encontrar, dentro dela, caminhos viáveis.
Para Karyne, esse exercício foi revelador. Antes de pensar em carreira ou em inglês, foi preciso entender como ela própria funcionava. Quais eram seus limites. Onde estava perdendo energia. O que precisava mudar na rotina para que o restante fizesse sentido.
É importante notar que a gestão de rotina para estudantes de baixa renda não é apenas uma questão de produtividade. É, muitas vezes, uma questão de sobrevivência emocional. Aprender a dizer não para compromissos que drenam sem retorno, identificar quais tarefas geram impacto real, criar pequenos rituais de descanso dentro de uma agenda caótica: tudo isso também faz parte do desenvolvimento de liderança tanto quanto saber falar em público ou liderar uma equipe.
Comer bem também é desenvolvimento
O tema dos hábitos alimentares pode parecer distante de uma conversa sobre formação de líderes. Mas desenvolver-se de forma integral significa olhar para todos os aspectos da vida, inclusive os mais cotidianos. Afinal, a alimentação afeta a energia, o humor e a concentração. Pular refeições ou não se alimentar bem pode gerar desafios para absorver o que é aprendido e manter o ritmo exigido pela graduação.
Na sessão sobre o tema, o mentor é orientado a entender qual infraestrutura o jovem tem em casa, se a universidade oferece restaurante universitário com preço acessível e quais são os maiores obstáculos para manter uma alimentação mais equilibrada. A partir daí, constroem juntos um plano de ação realista, com metas alcançáveis.
Nada irreal, apenas o suficiente para construir uma base. E é nessa base que o desenvolvimento real se sustenta.
A lógica de não desperdiçar oportunidades e o peso que ela carrega
Existe uma frase que muitos jovens de baixa renda carregam: “não pode desperdiçar essa chance.” A bolsa, o programa, o estágio, a vaga. Há uma consciência muito viva de que a oportunidade custou muito para chegar até ali, e que não chega para todo mundo.
Essa consciência pode ser um motor poderoso. Mas pode também gerar insegurança. O medo de errar torna-se tão grande que o jovem pode hesitar em tentar. A pressão de aproveitar tudo pode se transformar em ansiedade.
A mentoria atua exatamente nesse ponto de tensão. Ela ajuda o jovem a transformar a pressão em foco, a distinguir o que é urgente do que não é, a entender que cometer erros dentro de um processo estruturado de aprendizado não é desperdício: é parte inevitável e necessária do crescimento. O mentor que já errou, vivenciou frustrações e conseguiu reorientar o caminho, oferece algo importante: a prova viva de que é possível continuar depois de um obstáculo.
Há também a questão da expansão de horizontes. Muitos jovens chegam à universidade sem conhecer caminhos possíveis (pós-graduação, trabalho no exterior, programas de desenvolvimento de liderança, residências profissionais, oportunidades em organizações de impacto, etc). O mentor proporciona esse mapa, não para determinar o destino, mas para mostrar que o território é muito maior do que parecia.
Líderes se formam com acompanhamento
A experiência de Karyne reforça que jovens com potencial transformador precisam de pessoas que os levem a sério, façam perguntas reflexivas, abram portas e compreendam o tempo necessário para que cada um encontre o próprio caminho.
A mentoria bem conduzida vai além do auxílio na formação de profissionais preparados. Ela ajuda o jovem a compreender o propósito da sua atuação. Esse tipo de clareza contribui para a construção de líderes multiplicadores.
Para o Instituto Semear, o compromisso com esse processo é essencial. O acompanhamento próximo durante o período universitário gera transformação: os resultados não aparecem apenas nos currículos, mas nas escolhas, nas atitudes e no impacto que esses jovens vão gerar nas organizações e comunidades pelas quais passarem.
A evasão universitária envolve diferentes fatores, entre eles os financeiros, emocionais, familiares e acadêmicos. Nesse cenário, a mentoria oferece algo essencial: uma escuta real, um olhar individualizado e a sensação de que o jovem não está sozinho nessa travessia.
Karyne está trilhando a sua jornada. E já sabe com clareza para onde está indo.
Compartilhe esse post com a sua rede:
Veja nossas outras publicações!
Mentoria: aprendizados que me marcaram Autor: Felippe Furtunato, Jovem-SementeA jornada universitária costuma vir acompanhada de uma bagagem invisível: a insegurança diante do desconhecido, a ansiedade sobre o futuro profissional e
Do aprendizado à ação: jovens do PlantYou fazendo a diferença Autor: Giovanna Maria, Jovem-Semente PlantYou e as trajetórias que dão vida ao propósito O Instituto Semear permanece firmemente engajado na
Parceria de Impacto: fortalecendo a jornada de jovens universitários por meio do aprendizado de inglês Autor: Brenda Dantas, Time Administrativo Fluência no inglês como caminho para o crescimento O mundo
Como projetos culturais na universidade fortalecem a comunidade acadêmica Autor: Silvia Boni, MentoraEm entrevista para Reuters, em 2003, em Paraty/RJ, o então Ministro da Cultura Gilberto Gil destacou: “tem que
Do Campus para o Mundo: como construir caminhos para o intercâmbio Autor: Giovanna Cesario, Jovem-SementePara muitas pessoas, fazer intercâmbio ainda parece um plano distante. Quando o estudante vive uma rotina