Dia dos Povos Indígenas: a importância da presença indígena no ensino superior

Autor: Giulia Guimarães, Jovem-Semente

A inclusão de estudantes indígenas nas universidades brasileiras representa não apenas um avanço na garantia de direitos cujo acesso foi historicamente marcado por desigualdades, mas também uma transformação profunda no próprio ambiente acadêmico. Nas últimas décadas, o número de estudantes indígenas ingressantes no ensino superior cresceu de forma expressiva, impulsionado, entre outros fatores, por políticas de ação afirmativa como a Lei de Cotas (Lei 12.711/2012) e por iniciativas de organizações da sociedade civil. Esse movimento tem demonstrado que a presença indígena na universidade contribui para a ampliação do conhecimento científico, a valorização de saberes diversos e a promoção da permanência estudantil entre populações que, por décadas, tiveram acesso limitado a esses espaços.

Apesar dos avanços, muitos desafios ainda permanecem. No ensino superior, estudantes indígenas enfrentam dificuldades de permanência. Entre os principais obstáculos estão a falta de apoio financeiro adequado, o preconceito estrutural e a necessidade de fortalecimento das condições de permanência.

Diversidade de saberes e reparação histórica

A universidade brasileira constituiu-se historicamente como um espaço de acesso restrito e marcado por desigualdades. Durante séculos, populações indígenas tiveram acesso extremamente limitado à educação formal e, quando incluídas, frequentemente enfrentaram processos de assimilação que desconsideravam suas línguas, tradições e identidades. Esse passado de violência epistêmica — entendida como a desvalorização e supressão de outros modos de conhecer e interpretar o mundo — deixou marcas profundas. Até o início dos anos 2000, a presença de indígenas na universidade era bastante reduzida. 

Essa realidade passou por uma mudança significativa por meio da implementação das cotas raciais e étnicas, da criação de vestibulares específicos e do fortalecimento de movimentos indígenas organizados. Hoje, segundo o Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep), mais de 50 mil indígenas estão matriculados no ensino superior brasileiro.

Os desafios da permanência além do acesso

Embora o acesso tenha crescido, a permanência ainda é um desafio. A evasão universitária entre estudantes indígenas está fortemente associada à vulnerabilidade socioeconômica, já que muitos jovens provêm de famílias de baixa renda. Sem bolsa-auxílio ou moradia estudantil, torna-se difícil conciliar os estudos com a realidade desafiadora, frente à qual o Instituto Semear atua por meio do auxílio financeiro a jovens universitários de baixa renda. Além disso, os processos de ingresso nas universidades ainda apresentam barreiras de acesso, especialmente quando se consideram as condições da educação básica entre populações indígenas.

Políticas públicas e iniciativa da sociedade civil

A Lei de Cotas, sancionada em 2012 e atualizada em 2023, prevê a reserva de vagas para estudantes indígenas e demais grupos contemplados. Na prática, a implementação pode variar entre instituições e regiões do país, especialmente no que diz respeito às estratégias relacionadas à permanência estudantil. Nem todas as instituições contam com iniciativas estruturadas voltadas ao acompanhamento e à permanência dos estudantes. Em alguns contextos, fatores como a distância da comunidade de origem e da rede de apoio familiar podem impactar a experiência dos estudantes ao longo da trajetória acadêmica.

Além das cotas, existem outras políticas de apoio à permanência estudantil. O Programa de Bolsa Permanência (PBP), do governo federal, vinculado ao conjunto de ações de assistência estudantil e regulamentado pelo Decreto nº 7.234/2010, oferece auxílio financeiro a estudantes indígenas e quilombolas em situação de vulnerabilidade.

Iniciativas da sociedade civil também desempenham um papel importante, como programas de pré-vestibular comunitário, tutoria acadêmica, acompanhamento psicológico, assessoria jurídica e redes de apoio voltadas ao acolhimento e à permanência de estudantes indígenas no ensino superior.

Histórias que inspiram

Apesar das dificuldades, há exemplos inspiradores que mostram o potencial transformador da presença indígena na universidade. Um deles é a história de Samela Sateré-Mawé, primeira indígena a obter o título de doutora em química pela Universidade Federal do Amazonas (UFAM). Sua tese desenvolveu um método de baixo custo para detectar mercúrio em peixes da bacia do Rio Amazonas, relacionado ao garimpo ilegal em terras indígenas. Hoje, Samela coordena um laboratório de análise ambiental em Parintins (AM) e orienta jovens indígenas que sonham com a carreira científica.

Caminhos para fortalecer a presença indígena nas universidades

A transformação é um trabalho coletivo. Cada pessoa pode contribuir para fortalecer a presença de estudantes indígenas no ensino superior, divulgando informações precisas sobre as cotas e políticas de permanência, além de apoiar iniciativas da sociedade civil que atuam na promoção do acesso e permanência estudantil.

Profissionais de educação podem incorporar autores indígenas em suas bibliografias, convidar lideranças para atividades em suas instituições e contribuir para o fortalecimento de abordagens curriculares mais diversas. Jornalistas e comunicadores podem atuar na forma como retratam povos indígenas como sujeitos ativos, evitando estereótipos e generalizações, além de considerar boas práticas como o respeito às etnias, aos nomes e aos protocolos de uso de imagem. Já estudantes não indígenas podem atuar como aliados, contribuindo para o enfrentamento do racismo, participando de grupos de estudo sobre culturas indígenas e demais iniciativas.

Por fim, é importante que a permanência de estudantes indígenas no ensino superior siga sendo fortalecida por meio da criação de estruturas institucionais voltadas a esse público, e do combate ao racismo, com canais de denúncia e mecanismos de apuração de casos de discriminação. Investir em educação acessível contribui para a formação acadêmica e fortalece o desenvolvimento social de forma mais ampla.

Por um futuro melhor

A presença indígena no espaço acadêmico não deve ser entendida como uma concessão da sociedade aos povos originários. É um direito conquistado por meio de séculos de resistência e um ganho conjunto da população brasileira. Cada estudante indígena que ingressa, permanece e conclui seu curso é uma semente plantada. Essa semente germina em conhecimento diverso, em políticas públicas eficazes e em uma sociedade mais plural e representativa.

O caminho ainda é longo, mas há transformações em curso que nos permitem um vislumbre de esperança: uma maior presença indígena em diferentes instituições ao longo dos últimos anos e programas que têm contribuído para a formação de doutores indígenas em áreas como o direito, a medicina e a engenharia. Cada vez mais, a sociedade compreende que a universidade só será verdadeiramente pública e universal quando acolher todos os saberes e todas as formas de existir.

O Instituto Semear compreende a importância da presença indígena na universidade, valorizando talentos e a pluralidade de saberes, e acredita na educação acessível como uma ferramenta importante para a construção de uma sociedade mais justa. A seguir, você acompanha o relato do Kyan Loza Callisaya, Jovem-Semente do Instituto e estudante indígena no ensino superior, sobre sua experiência na universidade:

“Minha experiência na universidade começa com uma percepção muito clara: eu sei que existem pessoas indígenas dentro da universidade. Sei que frequentamos os mesmos espaços, que estamos presentes em salas de aula, corredores e bibliotecas. Mas, essa presença quase nunca se revela no dia a dia. Eu não encontro essas pessoas. Não criamos vínculos porque, muitas vezes, simplesmente não nos vemos. […] Em muitos (ou todos) momentos, a única pessoa indígena naquele espaço sou eu. Esse é um sentimento que marca minha trajetória na faculdade, a sensação constante de invisibilidade. Muitas vezes não me sinto pertencente à comunidade universitária. Não me sinto representado, nem reconhecido. Isso me faz pensar também em quantas outras pessoas indígenas talvez nem tenham conseguido chegar até aqui. Estar no ensino superior já é, por si só, um privilégio. […] Mas reconhecer isso não significa que o sentimento de pertencimento esteja garantido. 

Dentro da universidade, muitas vezes não consigo me ver. Quando procuro pesquisas, livros ou referências sobre os povos indígenas ao qual pertenço, encontro muito pouco ou nada. Às vezes aparecem referências superficiais, mas raramente encontro estudos que dialoguem profundamente com essa história. […] Uma experiência que me marcou aconteceu no ano passado, quando fui convidado a participar de um desfile em celebração ao Dia da Consciência Negra na escola onde estudei. Naquele momento, pensei em fazer grafismos indígenas no rosto, mas hesitei. Eu tinha medo de ir para a universidade logo depois com esses grafismos, medo de como seria visto naquele ambiente. Por um momento reuni coragem e fiz o grafismo, participei do desfile e depois precisei ir correndo para a faculdade. No caminho, acabei removendo do meu rosto. Percebi que ainda tinha receio de ocupar aquele espaço afirmando de forma tão visível a minha identidade indígena. Dentro do próprio instituto onde estudo, raramente vejo pessoas expressando essa identidade. Não vejo grafismos indígenas, não vejo muitas pessoas que compartilhem dessa mesma experiência. 

Também existe outra dimensão importante nessa história… Meu povo. O povo Aymará pertence ao contexto indígena andino. Nossa cultura possui diferenças importantes em relação a muitos povos indígenas do Brasil. Em alguns casos, elementos culturais que aparecem com mais visibilidade nos povos indígenas brasileiros não fazem parte da tradição do meu povo. Isso faz com que minha experiência indígena dentro do Brasil também seja atravessada por outro aspecto, sendo o da imigração. Minha família veio da Bolívia. Por isso, além de indígena, também carrego a experiência de ser filho de imigrantes. Muitas vezes ser indígena já é difícil dentro de determinados espaços, ser indígena imigrante torna essa experiência ainda mais complexa. 

Ao longo da minha trajetória também percebo como faço parte de diferentes grupos historicamente marginalizados. Ainda assim, prefiro não usar a palavra “minoria”. Nós não somos minorias. Indígenas, pessoas negras, pessoas periféricas e imigrantes existem em grande número na sociedade. […] O que acontece é que muitas vezes somos minorizados, colocados em posições de invisibilidade ou tratados como exceções. […] Às vezes pode existir apenas uma pessoa indígena em determinado espaço considerado de elite, mas essa pessoa existe. E muitas vezes essa presença vem acompanhada de um sentimento profundo de solidão. Esse sentimento começou a mudar um pouco neste ano, durante um encontro de calouros do meu curso. Entre tantas pessoas, percebi um estudante que havia se apresentado com um nome indígena. Aquilo me chamou atenção e, depois de algum tempo, decidi me aproximar. Perguntei se ele se reconhecia como indígena e ele respondeu que sim. A partir dessa conversa começamos a nos aproximar. Foi um encontro simples, mas extremamente significativo para mim, porque pela primeira vez dentro da universidade eu estava conversando com outra pessoa indígena que também ocupava aquele espaço. Hoje estamos nos organizando para iniciar a construção de um coletivo indígena dentro da universidade. […] Quero pesquisar sobre meu povo, sobre minha cultura e sobre as experiências indígenas contemporâneas, quero mostrar que nós existimos e que temos o direito de falar sobre nós mesmos.

Essa é uma conversa que também aparece muito entre mim e minha irmã, que estuda na mesma universidade que eu e também é uma pessoa indígena Aymará. Nós dois sabemos o quanto foi difícil chegar até aqui. Somos da periferia de Guarulhos, todos os dias enfrentamos um trajeto de cerca de duas horas até o campus do Butantã, estudamos em escolas públicas e enfrentamos muitas limitações no acesso à educação de qualidade. Somos filhos de imigrantes bolivianos, somos indígenas. Nossa presença na universidade não foi algo dado, foi algo conquistado, e essa luta não termina quando conseguimos entrar na universidade. Ela continua todos os dias para permanecer nesse espaço. 

Além disso, minha experiência também é atravessada por outras dimensões da minha identidade. Eu também sou um homem trans. Isso significa que minha trajetória dentro da universidade passa por diferentes camadas de pertencimento, reconhecimento e resistência. Mas, entre todas essas dimensões, a questão indígena é algo que me atravessa de forma muito profunda. Reconhecer-me como indígena também significa afirmar que eu tenho o direito de estar ali. Tenho o direito de estudar, tenho o direito de pesquisar, tenho o direito de produzir conhecimento. Tenho muito a aprender, mas também sei que tenho muito a contribuir. Por isso, a construção de um coletivo indígena dentro da universidade é algo tão importante. Esperamos que esse espaço possa fortalecer as vozes indígenas dentro da instituição e mostrar que existem muitas experiências indígenas diferentes. 

Existem povos indígenas originários do Brasil, mas também existem povos indígenas de outras regiões da América Latina, como os povos andinos. Essas histórias não devem ser separadas ou invisibilizadas. Povos indígenas existem, estão vivos e estão presentes. Eu não quero me ver representado apenas em museus ou em estereótipos. Não quero que a identidade indígena seja tratada apenas como algo do passado. Nós não somos personagens de livros didáticos, objetos de exposição ou imagens congeladas na história. Nós estamos aqui. Estamos nas cidades, nas universidades, nos espaços culturais e em muitos outros lugares. Somos pessoas, temos histórias, sentimentos e sonhos. E ocupar a universidade também é uma forma de afirmar isso. Minha experiência como pessoa indígena dentro da universidade é, acima de tudo, uma experiência de luta por reconhecimento, pertencimento e visibilidade. Porque nós existimos e continuaremos existindo.”

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