Memórias de Jovem-Semente
Autor: Lettycia Souto, Jovem-Semente
Momentos que marcaram a trajetória pelo Semear
Nem sempre é claro para nós o momento em que tudo muda. Aquele abismo entre o passado, quando deixamos de ser; o presente, quando estamos no meio de toda essa confusão que é a mudança; e o futuro, aquele que ambicionamos com todo o nosso ser e que imaginamos de forma inspiradora. Somente no momento que paramos, respiramos, e olhamos para trás é que notamos que não somos mais os mesmos, uma sequência de acontecimentos que nunca paramos para mapear.
Entretanto, ao conduzir o olhar por entre nossos diversos passados, existe um momento em comum de ruptura, transição e que marca todo Jovem-Semente, um evento que transita entre diversas trajetórias, diversos mundos internos e, apesar de sermos indivíduos tão diferentes, torna-se memorável para todos. Esse momento tem nomes, possui rostos, tem cheiro de auditório cheio e coração acelerado: o início da trajetória no Instituto Semear.
Eu lembro da sensação de chegar no Evento de Abertura da Trilha de Autoliderança carregando sonhos ainda tímidos, daqueles que quase pedimos desculpas por ter. Sonhos grandes demais para a realidade que conhecíamos. Planos que pareciam ousados demais para quem não cresceu com tantas referências ao redor. Mas, naquele espaço, algo começou a se reorganizar. Pela primeira vez, estávamos cercados por jovens que também sonhavam alto, que almejavam deixar sua marca no mundo, e por pessoas, lideranças, que já tinham alcançado isso e nos mostravam que era possível, independente do lugar que vínhamos.
Esse momento marcante foi permeado por uma crença quase ingênua, mas profundamente poderosa: a de que tudo era possível. E não porque alguém disse isso como frase motivacional vazia, mas porque o ambiente inteiro parecia conspirar a favor dessa ideia. Cada história compartilhada, cada conversa no intervalo transmitia a sensação que tínhamos achado o nosso lugar.
E isso mudou tudo.
Sobre se permitir sonhar
Talvez a maior transformação que o Semear tenha nos proporcionado seja a interna. A partir do evento de abertura até o momento presente, o ato de sonhar se transformou. Antes, parecia algo distante, quase imprudente. Planejar a vida exigia um tipo de segurança que não tínhamos. Entretanto, com o convite entre os treinamentos e missões, algo começou a germinar: a permissão. Permissão para desejar mais. Permissão para ocupar espaços que antes pareciam não ser para nós. Permissão para nos imaginarmos em lugares que nunca tinham feito parte do nosso repertório, e, sobretudo, permissão para planejar, passo a passo, esse futuro, entregando não apenas oportunidades, mas modificando crenças internas e transformando a forma como nos enxergamos.
compreendemos, finalmente, que a nossa história não era um limite, era potência. Que as dificuldades que eu carregava também me davam repertório, sensibilidade e força. Que juventude não é sinônimo de inexperiência, mas de movimento.
Existe uma força muito própria da juventude que se manifesta quando ela encontra direção. E o senso de comunidade que o Semear proporciona impulsiona isso, uma energia compartilhada.
A cada encontro, sentíamos que estávamos construindo algo maior do que projetos individuais. Estávamos construindo narrativa. Estávamos ressignificando o que é ser jovem no Brasil. Estávamos provando, uns para os outros, que é possível.
Construção Coletiva
Se permitir sonhar foi o primeiro movimento. Sustentar esse sonho foi o verdadeiro desafio. A partir daí, compreendemos que a permanência universitária não é apenas continuidade acadêmica, mas um exercício diário de responsabilidade. Ocupar e permanecer exige estratégia, disciplina e consciência das próprias vulnerabilidades. Exige organizar a rotina quando o cansaço pesa, buscar orientação quando a dúvida paralisa e administrar recursos quando eles são escassos.
Ao longo da trajetória, notamos que responsabilidade não é apenas individual. Quando um jovem de baixa renda consegue permanecer, ele rompe uma lógica estatística que historicamente o empurra para fora. Permanecer torna-se, então, um gesto político e coletivo. Não se trata apenas de concluir um curso, mas de ocupar um espaço que nem sempre foi pensado para nós e transformá-lo em território possível para outros. Cada semestre concluído carrega consigo uma dimensão que ultrapassa o desempenho acadêmico: ele afirma que apoio, rede e orientação fazem diferença concreta.
Permanecer, quando pensado como conceito, encontra-se no âmbito da construção coletiva e consciente, a qual deve buscar impactar a sociedade brasileira, transformando, a partir de oportunidades acessadas pelo plano individual, algo coletivo, universal. Essa construção exige assumir que cada oportunidade recebida gere continuidade, impacto e abertura de caminhos para além de si mesma, tecendo redes que nunca são desfeitas, construindo legado para si e na vida de outros.
Histórias que se encontram e se transformam
Quando se tece uma rede, unimos variadas histórias que se potencializam em um único tecido. Ao ouvir trajetórias diversas, podemos, por fim, interpretar o que significa ser agente multiplicador, assumindo o compromisso de que o que se aprende circule. Somos como uma ponte, fazendo com que a informação que chega até nós não termine aí. Se hoje a trajetória acadêmica de diversos jovens deixou de ser reativa e passou a ser intencional, é porque compreendeu-se que crescer individualmente é insuficiente quando se faz parte de uma rede que aposta na transformação coletiva.
A partir desse entendimento, a transformação deixa de ser abstrata e passa a ser prática. Ser Jovem-Semente não se resume a ocupar um espaço dentro de um programa, mas a assumir uma postura diante da própria trajetória. É compartilhar informações antes que alguém precise perguntar. É orientar sobre caminhos acadêmicos, editais, oportunidades. É reduzir o tempo de incerteza de quem ainda está começando. A ação concreta é o que sustenta aquilo que, no início, parecia apenas inspiração.
Com o tempo, compreendi que o verdadeiro impacto do encontro entre histórias está na continuidade. Permanecer na universidade, para muitos de nós, não é simples consequência de esforço individual; é resultado de apoio estruturado, estratégia e orientação. Cada semestre finalizado carrega um aspecto que vai além da conquista pessoal: ele reafirma que jovens de baixa renda não estão destinados à evasão, mas podem ocupar e transformar os espaços que historicamente lhes foram negados.
Volto, então, à imagem daquele auditório cheio, ao coração acelerado do primeiro encontro. Naquele momento, talvez eu não soubesse nomear o que estava começando. Hoje compreendo que ali não nasceu apenas uma esperança, mas uma responsabilidade. A responsabilidade de permanecer com propósito. De crescer com consciência. De transformar oportunidade em compromisso.
Encerrar este capítulo não significa concluir a trajetória. Significa reconhecer que aquilo que começou como uma experiência individual tornou-se parte de algo maior. Histórias que se encontram não apenas se transformam, elas continuam. E é nessa continuidade, construída com ação, permanência e responsabilidade, que a trajetória como Jovem-Semente encontra sentido.
Significa reconhecer que trajetórias continuam se cruzando, se ajustando e se transformando. O Semear não representa apenas um apoio durante a graduação; ele é, em essência, um espaço em que permanência, liderança e responsabilidade caminham juntas. Se cresci, foi porque encontrei outras trajetórias que me deslocaram. Se sigo, é porque entendi que meu percurso também precisa deslocar outros. Histórias que se encontram produzem transformação. Histórias que assumem essa transformação produzem impacto.
Entre aquele primeiro encontro e o momento presente, houve escolhas silenciosas que não aparecem nas fotos dos eventos. Houve dias de dúvida, decisões difíceis, cansaço acumulado e responsabilidades que exigiram mais do que entusiasmo inicial. Nesse intervalo compreendemos que a transformação não acontece tão somente em grandes declarações, mas na constância. É no brilho do começo que inicia a trajetória, mas a disciplina que a atravessa.
Com o tempo, entendemos que maturidade não é perder a capacidade de sonhar, mas aprender a estruturar o sonho. É entender que liderança começa na própria organização, que permanência exige planejamento e que propósito precisa ser sustentado por ação concreta. O que antes era inspiração tornou-se compromisso cotidiano. O que começou como possibilidade tornou-se direção.
Hoje, quando paro e respiro, como naquele início em que ainda não sabia nomear o que estava acontecendo, reconheço que a mudança não foi repentina, mas construída. Se naquele auditório eu acreditava que tudo era possível, agora sei que o possível se constrói. E é nessa construção contínua de trocas que nossa trajetória encontra sentido.
Ser Jovem-Semente não é apenas germinar. É garantir que o que cresce em nós produza frutos para além de nós.
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